Em entrevista ao Soft Commodities Forum (SCF), Gabrielle Rosa, gerente do Parque Vida Cerrado, conta como o monitoramento de fauna tem ajudado a medir os resultados ecológicos do Farmer First Clusters no oeste da Bahia.
Em uma paisagem agrícola, ver vegetação nativa não significa necessariamente que os processos ecológicos estejam funcionando. Uma imagem de satélite pode mostrar onde estão os fragmentos de Cerrado, mas não consegue mostrar, sozinha, se esses ambientes continuam sendo utilizados pela fauna, se estão conectados ou se conseguem sustentar as espécies que dependem deles.
No oeste da Bahia, onde a soja ocupa uma parte significativa da paisagem, o Parque Vida Cerrado vem acompanhando a fauna em propriedades participantes do Farmer First Clusters (FFC), iniciativa do Soft Commodities Forum voltada a apoiar produtores e promover soluções para paisagens agrícolas mais sustentáveis. O trabalho oferece uma perspectiva complementar aos indicadores tradicionais de uso da terra: observar a vida que continua utilizando esses ambientes.
Em entrevista ao SCF, Gabrielle Rosa, gerente do Parque Vida Cerrado, destaca que existe uma demanda crescente do mercado internacional por cadeias produtivas livres de desmatamento e capazes de demonstrar resultados concretos em conservação. Segundo ela, cuidar da biodiversidade deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a fazer parte da estratégia de longo prazo da própria agricultura.
“Produção e conservação não são opostos, elas dependem uma da outra”, explica Gabrielle. No Cerrado, essa relação é particularmente importante porque o bioma presta serviços ecossistêmicos fundamentais para a agricultura, contribuindo para a proteção de nascentes, a infiltração de água no solo, a regulação do clima e processos como polinização, dispersão de sementes e regeneração natural.
É justamente aí que o monitoramento da biodiversidade ganha importância, pois a fauna ajuda a revelar se essa infraestrutura natural continua funcionando.
Monitoramento de fauna: mais do que contar espécies
O monitoramento realizado pelo Parque Vida Cerrado utiliza principalmente armadilhas fotográficas distribuídas em diferentes remanescentes de Cerrado nas propriedades. Em alguns casos, lobos-guará recebem rádio-colares, permitindo acompanhar seus deslocamentos e entender como utilizam a paisagem agrícola.
O objetivo, no entanto, não é simplesmente produzir um inventário de espécies. A equipe busca compreender quais animais utilizam cada ambiente, como essa composição muda ao longo do tempo, quais áreas funcionam como corredores ecológicos, quais fragmentos são particularmente importantes para espécies ameaçadas e como a fauna responde às transformações da paisagem.
Um dos exemplos utilizados pelo Parque Vida Cerrado é o lobo-guará, descrito pela equipe como um “detetive ecológico”. Por depender de áreas extensas, conectadas e relativamente conservadas, sua presença pode fornecer pistas importantes sobre as condições da paisagem.
Quando lobos-guará, antas, onças e outras espécies continuam utilizando uma região agrícola, isso indica que os remanescentes de vegetação ainda oferecem alimento, abrigo e condições para sustentar a biodiversidade. Nesse sentido, a fauna funciona como uma evidência de que os habitats não existem apenas no mapa, mas continuam desempenhando funções ecológicas.
Os resultados do monitoramento apontam 32 espécies de mamíferos nativos registradas, incluindo 12 ameaçadas de extinção na Bahia. Um dado particularmente relevante é que apenas cerca de 16% das espécies foram compartilhadas entre todos os sítios monitorados, o que significa que diferentes fragmentos oferecem condições distintas para a fauna.
Em vez de considerar apenas grandes áreas contínuas, os dados reforçam a importância de uma rede de remanescentes conectados, uma vez que cada fragmento pode desempenhar uma função específica na conservação regional.
O papel dos fragmentos de Cerrado na paisagem agrícola
Durante muito tempo, indicadores como hectares preservados ou restaurados, número de mudas plantadas e número de participantes foram importantes para demonstrar a dimensão e o esforço de uma iniciativa, e continuam sendo relevantes. Mas, quando olhamos para a paisagem a partir da fauna, surge uma outra dimensão: não se trata apenas de saber quanto foi conservado ou restaurado, mas de entender que papel essas áreas estão desempenhando na paisagem.
O fato de cada fragmento apresentar uma composição própria de espécies mostra que áreas conservadas não são intercambiáveis. Cada uma pode contribuir de uma maneira diferente para a manutenção da biodiversidade e para a conectividade da paisagem.
A presença contínua de determinadas espécies pode indicar que os remanescentes permanecem conectados e que ainda conseguem sustentar processos ecológicos. Da mesma forma, mudanças na composição da fauna podem ajudar a identificar transformações que outros indicadores não capturam sozinhos, uma diferença importante entre medir uma intervenção e acompanhar seus efeitos ao longo do tempo.
O monitoramento da biodiversidade acrescenta outra camada ao trabalho realizado: a possibilidade de acompanhar se as mudanças na gestão e conservação da paisagem também estão contribuindo para manter ou recuperar sua funcionalidade ecológica.
Conservação começa pelas pessoas
Gabrielle destacou um aspecto que aparece de forma muito concreta no trabalho do Parque Vida Cerrado: “conservação começa com pessoas”. O monitoramento e a restauração podem ser atividades técnicas, mas sua continuidade depende do envolvimento dos produtores e das pessoas que trabalham nas propriedades.
Ao longo do trabalho com as fazendas do projeto, esse envolvimento também passou por uma mudança de percepção. Em alguns casos, áreas de Reserva Legal e Áreas de Preservação Permanente (APP), antes vistas principalmente como espaços sem uso produtivo ou como uma obrigação legal, passaram a ser reconhecidas como parte do patrimônio da propriedade, com funções importantes para a água, a biodiversidade e a qualidade ambiental.
Essa mudança também aparece na relação cotidiana com a fauna. O Parque Vida Cerrado registrou um aumento nos chamados realizados pelas fazendas para resgate de animais silvestres. Em um caso recente, uma filhote de lobo-guará foi encontrada em uma lavoura com uma fratura grave na pata. A equipe da fazenda acionou o Parque Vida Cerrado, que realizou o resgate. O animal está em tratamento e continua sendo acompanhado pela equipe.
O episódio representa uma mudança importante: o conhecimento gerado pelo monitoramento não fica restrito aos pesquisadores. Ele passa a influenciar a forma como as pessoas que vivem e trabalham naquela paisagem percebem e respondem à presença da fauna.
De boas intenções a evidências concretas de conservação
Para cadeias como a da soja, essa discussão ganha um componente adicional: o mercado internacional exige, cada vez mais, evidências verificáveis de que a produção está livre de desmatamento e gera resultados reais de conservação. Nesse cenário, dados de biodiversidade deixam de ser apenas um indicador ambiental e passam a compor a própria estratégia de acesso a mercado e gestão de risco da cadeia.
“Não será suficiente dizer que uma propriedade é sustentável. Precisamos garantir que o total destinado à conservação da vegetação nativa, 20% no Cerrado, é eficiente na garantia dos recursos ecossistêmicos”, afirma Gabrielle.
O próprio SCF vem avançando nessa direção, combinando monitoramento e transparência sobre o uso da terra com ações de transformação de paisagens e apoio aos produtores. Em 2025, o FFC já reunia 262 propriedades, abrangendo cerca de 1,4 milhão de hectares de áreas participantes e 300 mil hectares de vegetação nativa, com mais de US$ 12 milhões mobilizados.
O monitoramento de longo prazo não oferece uma resposta instantânea. Seu valor está em acompanhar a trajetória da paisagem, identificando padrões, mudanças e sinais de recuperação ou perda de funcionalidade ao longo do tempo. É nesse contexto que os dados de biodiversidade ganham valor estratégico: eles ajudam a responder se os investimentos estão tornando as paisagens mais resilientes, orientam decisões de manejo, conservação e restauração e oferecem a produtores, empresas e financiadores evidências concretas para avaliar a efetividade de suas iniciativas.
Como resumiu Gabrielle ao SCF: “Produzir alimentos e conservar a biodiversidade não são objetivos concorrentes. O desafio é construir paisagens onde essas duas agendas caminhem juntas, e a fauna é quem nos mostra, com evidências, quando isso está acontecendo.”
Este texto é baseado em entrevista concedida por Gabrielle Rosa, gerente do Parque Vida Cerrado, ao Soft Commodities Forum, com apoio de dados de monitoramento fornecidos pela organização.